
Ali Larijani: “Construímos e desenvolvemos mísseis com propósitos dissuasores”
23/10 21:40 CET
Militar
entrevista
Depois do dossier nuclear, o ataque contra os Guardas da Revolução volta a ensombrar as relações entre o Irão e os Estados Unidos.
O presidente do Parlamento iraniano acusou Washington “de terrorismo de Estado” durante a Assembleia Interparlamentar em Genebra.
Numa entrevista exclusiva à euronews com o enviado especial Mohamed Abdel Azim, Ali Larijani, defende o direito de Teerão recorrer à energia nuclear para fins civis.
Com o apoio de Moscovo e Pequim, Teerão mantêm-se firme contra Washington, Paris e Londres sobre um fundo de divisão dentro do próprio grupo dos Seis.
euronews – Há a ideia que o mundo se encontra dividido no que toca ao nuclear iraniano
Ali Larijani – Trabalhamos sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atómica, que mais podemos fazer?
O que nos dizem países como os Estados Unidos é que nem sequer podemos ter acesso a tecnologia nuclear para uso civil.
Enfatizam a questão da ameaça nuclear e impedem-nos de usar a tecnologia nuclear com fins pacíficos
euronews – Barack Obama está tentar mudar a política face ao Irão. Do chamado eixo do mal de Bush ao diálogo. Como encara o futuro?
Ali Larijani – Sim, o Sr. Obama disse que queria estender a mão ao Irão mas devido aos actos terroristas no país, essas mãos estão agora manchadas de sangue.
euronews – No Ocidente é comum dizer-se que Teerão está perto de conseguir a bomba atómica.
Ali Larijani – O que quer dizer com “perto de”? Que nos movimentamos com vista à construção de uma bomba atómica? Isso é mentira.
Até mesmo os relatórios dos serviços de informação norte-americanos mostram que não vamos nessa direcção.
Mas, sim , não escondemos que temos “know how” em matéria nuclear.
O Irão é um país assente em crenças e em valores religiosos. O líder do Conselho Supremo criou a Fatwa, um decreto religioso que proíbe o acesso a armas de destruição maciça. Não só nucleares como, também, químicas e biológicas.
Ali Larijani – Deixe-me fazer-lhe uma pergunta,
Os americanos têm ou não armas nucleares?
euronews – Sim, têm.
Ali Larijani – E Israel?
euronews – Ninguém pode dizer se Israel tem armas nucleares. Essa é a ambiguidade da doutrina nuclear israelita.
Acredita que Israel pode atacar as instalações nucleares iranianas?
Ali Larijani – Não levemos isso demasiado a sério. A minha pergunta é: será que a França tem armas nucleares? E o Reino Unido? E será que devemos ficar assustados por isso?
Porque não se travam esses países?
Porque não se alarma a Comunidade Internacional com isso?
Quando se trata do Irão, dizem que no futuro talvez venha a desenvolver armas nucleares.
Sabe-se! Será que têm algum espelho mágico que lhes diz que o Irão pode vir a fazer isso?
Como podem sancionar um país com base em possíveis intenções que alguém possa ter em mente?
euronews – Mas estão a testar mísseis. Estamos a falar de mísseis russos. Podem confirmar se têm mísseis russos S-300 no vosso território?
Ali Larijani – É claro e não há dúvidas, que nos vamos equipar para termos poder militar. Mas isso não é segredo, já o tinhamos dito.
Construímos e desenvolvemos mísseis com propósitos dissuasores .
Se nos ameaçarem, teremos de construir mais.
Israel está a fazer ameaças. Temos de estar preparados, temos de nos defender. Mas não estamos a ameaçar ninguém.
euronews – Creio que se está a referir ao terrorismo. Há alguns dias, o Irão foi palco de várias explosões. O governo iraniano acusa países estrangeiros. Pode específicar que países são esses?
Ali Larijani – Um dos líderes do grupo terrorista por detrás destas explosões disse, publicamente, que tem contactos e encontros com norte-americanos.
Infelizmente, os Estados Unidos têm, por vezes, acordos com eles, tanto no Iraque como no Afeganistão.
euronews – Está a acusar os Estados Unidos?
Ali Larijani – Estou, ouvi dizer que eles negaram o envolvimento. Não me parece que tenham agido bem.
euronews – Mas Washington acusa Teerão de apoiar a insurgência e grupos terroristas no Iraque
Ali Larijani – Tem alguma prova? Os norte-americanos sabem bem de onde vem o terrorismo no Iraque.
A maior parte vem de países que são amigos dos Estados Unidos.
Mas sabemos, temos informações sobre a existência de negociações e de encontros entre o embaixador dos Estados Unidos no Iraque, o sr Khalil Zadeh, e terroristas.
euronews – Referiu-se ao Hezbollah e ao Hamas. Diferencia as acções destes dois grupos?
Ali Larijani – É evidente que estes dois grupos são diferentes de outros. É a isso, que se dedicam os meios de comunicação social ocidentais. Querem confundir o Hezbollah e o Hamas com terrorismo.
E essa é uma grande mentira.
euronews – No Ocidente, muitas pessoas lamentam que Teerão apoie o Hezbollah e o Hamas
Ali Larijani- Temos orgulho em apoiá-los e nunca escondemos isso. Defendemos o Hezbollah e o Hamas. Não somos como outros países que dizem uma coisa e fazem outra.
Israel prossegue a construção de colonatos, bombardeia e ataca os palestinianos. Gaza continua bloqueada. Um milhão e meio de pessoas não tem acesso a cuidados de saúde nem a alimentos.
Agora falta pouco para o Inverno e as pessoas não têm casa para viver. Será isto defender os direitos humanos tal como apreguoam os americanos nas conferências que dão?
euronews – Mas a iraniana Sherin Ebadi, prémio Nobel da Paz pediu aos Estados Unidos para intervir em defesa dos reformistas.
Tem alguma palavra a dizer sobre a violação dos Direitos Humanos no Irão?
Ali Larijani – Claro, tudo aquilo que diz respeito aos Direitos do Homem vai muito bem e deve continuar em todo o mundo.
E nós apoiamos. Sinceramente, os países devem tratar deste assunto.
O que se passou em Abu Ghraib em Guantánamo, é algo que ninguém pode ignorar. Todo os países que violem os direitos humanos devem ser investigados.
Mas, atenção, e este é o pedido que faço à comunicação social: os direitos humanos não devem ser usados para tirar vantagem para levar o poder politico a pressionar outro países.
Muito obrigado…
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