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Mehmet Ali Talat é o presidente da República Turca de Chipre do Norte, um pequeno Estado que ocupa um terço do território da ilha e que no plano internacional só é reconhecido pela Turquia. Líder do Partido Republicano Turco até 2005, ano em que foi eleito presidente da República Turca de Chipre do Norte, Ali Talat é um defensor da reunificação da ilha de Chipre sob forma de uma Federação.
Mehmet Ali Talat diz-se pronto para negociar o futuro da ilha com o seu homólogo cipriota-grego, Demetris Christofias, que no dia da sua eleição em Fevereiro fez questão de enviar uma mensagem de amizade aos cipriotas-turcos.
euronews: Presidente Talat, seja bem-vindo à euronews. O senhor parece estar muito optimista em relação às negociações sobre o futuro da ilha. Qual é para si o maior obstáculo?
Mehmet Ali Talat: O problema com o lado cipriota-grego é a política de rejeição do ex-presidente Papadopoulos e do seu partido que é um parceiro de coligação do Sr. Christofias. Eles também estão presentes no Conselho Nacional. A Igreja é extremamente poderosa e o Sr. Christofias é obrigado a ouvi-los.
EN: Do seu lado, o senhor também deve ter imensas pressões do exterior, como por exemplo das autoridades turcas.
MT: Estou numa posição confortável porque tenho o total apoio da Turquia, não tenho qualquer tipo de problema e sei que sem o apoio da Turquia não conseguirei ter êxito. Portanto, não tenho quaisquer problemas. Se me sento à mesa das negociações é porque tenho o apoio total da Turquia.
EN: Um dos capítulos mais importantes é a questão dos colonos e os colonos estão a vir da Turquia, o que aparentemente é um grande problema…
MT: Não é um grande problema.
EN: Para o outro lado, sim.
MT: Os colonos… apesar de não ser a boa palavra, não é o bom termo para descrever essas pessoas, porque vivem na ilha há 20 ou 30 anos e de certa forma integraram-se, mas trata-se de uma questão humanitária e uma questão humanitária pode ser resolvida com regras internacionais. Por isso, nós estamos prontos para resolver este problema tendo em conta as regras e as leis internacionais.
EN: O senhor não aceita o termo colonos, mas não lhe parece que, mesmo assim, o poder na Turquia está a servir-se deste problema dos imigrantes?
MT: Como?
EN: Por outras razões políticas?
MT: Que outras razões políticas?
EN: Por exemplo, a relação entre o governo actual e o exército…
MT: Os colonos, os imigrantes, como?
EN: Bem, para uma política de ocupação.
MT: Política de ocupação? A relação entre o governo e o exército?
EN: É uma política de ocupação. É pelo menos o que defendem. É a questão que lhe estou a colocar.
MT: Sinceramente, não percebo a questão. Se a perceber posso responder.
EN: Para chegar a um acordo, como no caso cipriota, é preciso um equilíbrio entre as comunidades.
MT: Que tipo de equilíbrio?
EN: Um equilíbrio de população, demográfico.
MT: Eles são 700, 600 mil. Os cipriotas-turcos são 200 mil. Que tipo de equilíbrio é que eles pretendem. Eu não sei. Nós devíamos diferenciar e discriminar pessoas tendo em conta o sítio de onde vêm? Isto é muito importante, é crucial.
EN: E a questão da propriedade que é também muito importante?
MT: A questão da propriedade vai ser resolvida através de compensações, trocas ou restituições. Há estas três opções. E para se chegar a acordo esta questão tem que ficar resolvida.
EN: Outro ponto importante é a presença das tropas turcas no norte da ilha. Acha que quando houver um acordo estas tropas volta para casa?
MT: No quadro do acordo em vigor, 650 soldados turcos e 950 soldados gregos deverão ficar na ilha. O problema é o seguinte: se perguntar aos cipriotas-turcos se querem a presença de tropas turcas 95 por cento vão dizer-lhe que sim. E porquê? Por causa do clima de desconfiança. A presença das tropas turcas é crucial e muito importante para os cipriotas-turcos. E mesmo se não passa de um número simbólico, é um número simbólico.
EN: Não acha que Chipre é uma espécie de… refém é uma palavra muito forte, mas é uma parte da estratégia turca nas negociações com a União Europeia?
MT: A Turquia não está a usar Chipre para fazer chantagem junto da União Europeia, mas a União Europeia ou pelo menos alguns países da União Europeia e os cipriotas-gregos estão a usar Chipre.
EN: Não tem a impressão de que, de certa forma, Chipre é usado pela Turquia por questões de política interna?
MT: O problema de Chipre é um problema nacional para a Turquia e tem razão quando diz que algumas forças políticas usam Chipre na política interna. É uma realidade, infelizmente. Nesse sentido estou de acordo. Mas, mais uma vez, a maioria dos turcos, na Turquia, estão muito sensibilizados para o problema de Chipre e não se opõem a uma solução para resolver o problema de Chipre.
EN: Como é que imagina a Constituição de uma futura ilha de Chipre reunificada?
MT: É uma questão muito importante, um novo Estado de parceria vai ser formado e este Estado vai ter por base a igualdade política entre cipriotas-turcos e gregos. Igualdade política não significa igualdade numérica, mas significa participação efectiva na tomada de decisões e na implementação. Um Estado federal baseado em duas zonas e igualdade política entre os dois povos. Isto é crucial para os cipriotas-turcos.
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